Têm vozes suaves
como água morna em noites frias
e palavras escolhidas
com a precisão dos ilusionistas
Não gritam
não impõem
apenas semeiam certezas
em terrenos cansados de dúvida
Falam de esperança
como quem oferece abrigo
mas escondem nas mãos polidas
os fios invisíveis da manipulação
Sorriem enquanto confundem
abraçam enquanto desviam
e fazem do medo humano
uma estrada fácil de conduzir
E há quem os siga
não por fraqueza
mas porque o coração humano
tem fome de acreditar
Porque a mentira
quando dita com doçura suficiente
ganha perfume de eternidade
e aparência de absoluta razão
Mas a verdade...
essa velha silenciosa...
não precisa de adornos
chega devagar
descalça
ferida talvez
mas inteira
E quando finalmente entra
derruba o palco
apaga as luzes do espetáculo
e deixa os artistas da mentira
sozinhos diante do espelho
que sempre evitaram olhar.
Mário Margaride
21-o9-2026

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