Neste Universo complexo onde estamos
muitas vezes a mentira
é travestida de verdade
quando ela nos convém
Erguemos a voz pela justiça
mas baixamos os olhos
quando o injusto nos beneficia
Falamos de respeito
com palavras cuidadosamente escolhidas
e depois ferimos em silêncio
quem ousa pensar diferente
Defendemos a liberdade
desde que o outro não use a sua
para contrariar a nossa
Pregamos a tolerância
mas construímos muros
diante de quem não cabe
na medida estreita das nossas certezas
Falamos de igualdade
mas procuramos privilégios
quando a igualdade nos toca à porta
e chamamos coerência
àquilo que apenas nos favorece
Há uma estranha duplicidade
a morar dentro de nós
uma voz que proclama o correto
e outra que, às escondidas
negoceia com a conveniência
Somos capazes de defender a bondade
numa praça cheia de gente
e praticar a indiferença
quando ninguém está a olhar
E talvez a maior contradição
não esteja nas palavras que dizemos
mas no abismo que construímos
entre elas e os nossos gestos
Porque é fácil anunciar princípios
quando são apenas palavras
difícil é mantê-los vivos
quando exigem sacrifício
quando ferem o orgulho
quando nos obrigam a reconhecer
que também somos capazes
daquilo que condenamos nos outros
No fundo
cada atitude é um espelho
e há espelhos que evitamos
porque refletem sem piedade
aquilo que gostaríamos de esconder
a distância, entre o que dizemos ser
e aquilo que realmente somos
Talvez a verdadeira coerência
comece nesse instante silencioso
em que deixamos de culpar o mundo
e olhamos finalmente para nós
e perguntamos, sem desculpas
se todos fizessem aquilo que eu faço
o mundo seria realmente
aquilo que digo defender?
Mário Margaride
01-09-2026
