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domingo, 16 de agosto de 2026

QUANDO O TEMPO NOS MUDA

  

Haverá um dia 

em que percebemos

que o espelho já não devolve

inteiramente quem fomos

 

Não acontece de repente

é uma pequena ruga

um movimento que já exige mais cuidado

um cansaço que chega antes da vontade

uma palavra que demora a encontrar

o caminho até à boca

 

E então começamos a perceber

que o tempo não passa apenas pelos relógios

passa por dentro de nós

 

O corpo

outrora obediente

começa a não colaborar com a nossa vontade

 

Mas talvez a maior transformação

não esteja no corpo

mas na consciência

 

Porque envelhecer

é assistir em silêncio

à lenta despedida de algumas certezas

 

E nós, humanos

que passámos a vida a acreditar

que controlávamos o caminho

descobrimos finalmente

que há estradas que não escolhemos

 

Porque o tempo não pede licença

não pergunta se estamos preparados

não espera que aceitemos

simplesmente avança

 

E talvez seja isso

que mais nos assusta

não o cabelo branco

não a pele marcada

não os músculos que cedem

mas a possibilidade de um dia

precisarmos da mão de alguém

para fazer aquilo que antes

fazíamos sozinhos

 

Porque dentro de cada corpo envelhecido

continua a viver alguém que já foi jovem

que amou, lutou, sonhou, caiu, levantou-se

que carregou o mundo às costas

quando ainda acreditava

que o mundo lhe pertencia

 

Aceitar que envelhecer

não é uma derrota

mas a última transformação

de quem teve o privilégio

de permanecer vivo

 

Envelhecer é perder algumas forças

sim, é verdade

mas também é ganhar

uma coisa que a juventude raramente conhece

a consciência de que cada dia

não é apenas mais um dia

é um dia a menos

 

Nada podemos fazer contra o tempo

podemos apenas caminhar com ele

e viver cada dia

como se fosse o último das nossas vidas.

 

Mário Margaride

15-08-2026


terça-feira, 11 de agosto de 2026

A TERRA NÃO ESQUECE

  

Um dia

a Terra há de perguntar-nos

por que razão confundimos progresso

com destruição

riqueza com desperdício

e poder com domínio

 

Perguntará pelos rios envenenados

pelas florestas reduzidas a cinza

pelos oceanos sufocados

sob o peso do plástico

e da nossa ganância

 

Perguntará pelas árvores

que tombaram sem voz

pelos animais que desapareceram

antes que os nossos olhos

aprendessem a reconhecê-los

pelas espécies condenadas

à memória de quem já não as verá

 

E talvez então percebamos

que o fogo que queimava as florestas

não era apenas fogo

era um aviso

 

Que o gelo que desaparecia

não era apenas gelo

era o silêncio

de um planeta a perder o equilíbrio

 

Que os mares que avançavam

sobre cidades e aldeias

não eram apenas água

eram a resposta

de uma natureza empurrada

para além dos seus limites

 

Furacões, secas, incêndios

chuvas que chegam como muralhas

calor que transforma o ar

numa fornalha invisível

terras onde a vida já luta

por uma gota de água

 

E no meio de tudo isto

há seres humanos correndo

fugindo

chorando pelos mortos

procurando nas ruínas

onde antes existiam casas

 

A Terra não está a vingar-se

está a reagir

 

Nós é que esquecemos

que a natureza não é nossa propriedade

e que somos apenas hóspedes

numa casa que julgámos eterna

 

Enchemos os céus de fumo

e perguntamos por que razão

o clima enlouqueceu

 

Ferimos o planeta

e chamámos-lhe acidente

quando ele começou a sangrar

 

Porque a Terra continuará

talvez sem nós

e essa será a mais terrível das ironias

não somos nós que estamos a salvar o planeta

é o planeta que

apesar de tudo

ainda nos está a dar uma última oportunidade

para salvarmos a nós próprios.

 

Mário Margaride

09-08-2026


 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

QUANDO A JUSTIÇA CHEGA TARDE

 

Há casas que não são lares

são prisões sem grades

onde o medo aprende

a respirar em silêncio

 

Nas paredes

o eco dos gritos

mistura-se com o choro abafado

de mulheres de alma rasgada

de crianças

a quem roubaram a inocência

de idosos

que envelhecem sob o peso

da humilhação

 

As mãos que deviam acariciar

transformam-se em punhos

as palavras

que nasceram para amar

vestem-se de insultos

e tornam-se lâminas invisíveis

 

A noite fecha os olhos

mas não consegue esconder

as nódoas negras da dignidade

e cada hematoma

é uma página escrita

na pele da esperança

 

E a Justiça...

quantas vezes chega tarde?

quantas vezes caminha

com passos demasiado lentos

enquanto o carrasco

continua livre

respirando o mesmo ar

que sufoca quem sobrevive?

 

Há sentenças que nunca chegam

há processos que se perdem

há vítimas que desistem

antes de serem ouvidas

porque o cansaço

também é uma forma de morrer

 

Mas cada silêncio quebrado

é uma centelha

cada denúncia

é uma porta entreaberta

para um amanhã

menos sombrio

 

Que a lei não seja apenas tinta

sobre folhas esquecidas

mas um escudo erguido

contra a barbárie

 

E enquanto houver

uma única mulher

uma única criança

um único idoso

a viver com medo

dentro da própria casa

a nossa consciência

continuará sentada

no banco dos réus.

 

Mário Margaride

06-08-2026


sexta-feira, 31 de julho de 2026

O VENENO INVISÍVEL DA DESINFORMAÇÃO

  

Há venenos que não têm cor

nem cheiro, nem sabor

não se derramam em copos

nem se escondem em alimentos

 

Espalham-se, silenciosos

por ecrãs iluminados

por palavras apressadas

por imagens manipuladas

e por títulos que apelam mais à emoção

do que à verdade

 

As notícias falsas

não atacam apenas a inteligência

infiltram-se na consciência

alimentam medos inexistentes

fortalecem preconceitos adormecidos

semeiam a desconfiança entre amigos

famílias e povos

 

E, sem darmos conta

começamos a acreditar que o enganar é sabedoria

que o boato é certeza

e que a mentira, repetida mil vezes

se transforma em realidade

 

Então 

o comportamento muda

a serenidade dá lugar à impulsividade

o diálogo cede espaço ao julgamento

a dúvida saudável 

é substituída pela convicção cega

passamos a agir convencidos 

de que defendemos o correto

quando, afinal

caminhamos guiados por sombras

 

A desinformação é um veneno lento

não destrói o corpo

mas enfraquece o espírito crítico

e faz-nos confundir opinião com facto

emoção com evidência

ruído com conhecimento

 

Mas há um antídoto

chama-se verificação

diálogo e procura honesta da verdade

porque uma sociedade não se fortalece

pela quantidade de informação que consome

mas pela qualidade daquilo em que escolhe acreditar

 

No fim

a maior batalha não é travada nas redes sociais

mas dentro de cada consciência

é aí que a verdade encontra o seu lugar

ou é vencida pelo cómodo encanto da ilusão.

 

Mário Margaride

31-07-2026


segunda-feira, 27 de julho de 2026

OS PASSOS DA SOLIDÃO

 

Há um silêncio que pesa mais que o ferro

não porque grite

mas porque se cala

é a solidão que se senta ao nosso lado

sem pedir licença

sem dizer palavra

 

As horas tornam-se longas estradas

onde cada passo ecoa no vazio

e o coração procura um abraço perdido

mas encontra apenas o frio

 

Mais amarga ainda que a própria ausência

é a sensação de sermos esquecidos

de olhar em nosso redor

e descobrir rostos presentes...

mas distantes, distraídos

 

É sentir que a nossa voz se dissolve no vento

que as lágrimas caem sem testemunhas

como chuva noturna sobre um mar

que já perdeu as suas luas

 

Mas mesmo na noite mais profunda

há uma semente que insiste em viver

porque o ser humano, embora ferido

guarda uma luz difícil de vencer

 

Um gesto sincero, uma palavra amiga

um abraço dado no tempo certo

podem romper o muro da solidão

e transformar o deserto em campo aberto

 

Ninguém nasce para caminhar sozinho

nem para viver no abandono do mundo

somos feitos de encontros

de afeto e de partilha

raízes que procuram um solo fecundo

 

E quando um coração encontra outro coração

a escuridão aprende, enfim, a ceder

porque onde floresce a verdadeira presença

há sempre uma nova razão para viver.

 

Mário Margaride

26-07-2026