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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

PARTÍCULAS AO VENTO

  

São pequenas partículas

que o vento arrastou pelo ar

ninguém as consegue ver

mas vieram para ficar

 

Não têm cor nem têm brilho

mas têm a força inquietante

para nos causar imensa dor

a todo e qualquer instante

 

Vagueiam em voo livre

pelos céus da intolerância

não têm coleira ou trela

seguem pelos céus da ganância

 

E neste percurso Infindável

nas estradas sem sinais

as partículas se alastram

neste mar de vendavais

 

E os ventos fustigando

em todas as direções

deixam marcas bem profundas

na raiz dos corações.

 

Mário Margaride


 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A VOZ E A FORÇA DESTRUIDORA DA NATUREZA


Quando o céu se rasga em gritos de trovão

a noite desce mais cedo sobre as casas

o vento aprende nomes

chama por portas mal fechadas

arranca telhados como quem arranca memórias

 

A chuva não cai, invade

entra pelas ruas

pelos pulmões da terra

leva fotografias

cartas antigas

o pouco pão que sobrou na mesa

 

Cada gota pesa como um presságio

as árvores tombam em silêncio brutal

os rios esquecem as margens

e a água, que antes dava vida

agora cobra dívidas antigas

com juros de medo e lama

 

Há vozes presas nos andares baixos

olhos acesos na escuridão

mãos que seguram crianças

como se segurassem o próprio mundo

à beira de se desfazer

 

E entre escombros e sirenes cansadas

as populações aprendem de novo

a palavra recomeço


É pesada, frágil, mas necessária

para reconstruir abrigo

com o que restou

 

Quando a tempestade partir

não leva só nuvens

fica o chão ferido

ficam os nomes por contar

fica o eco dos que não voltam mais...

 

Mário Margaride

05-01-2026


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

VOZ DO SILÊNCIO

  

No silêncio da noite

onde o meu corpo tão cansado

nos lençóis se deita

o sono o engole, destroçado

num silêncio onde os sonhos, o enfeita

 

Amo todos os sonhos que se calam

de corações que sentem e não falam

tudo que é infinito e pequenino!

 

Asa que nos protege a todos nós

soluço imenso, eterno, que é a voz

do nosso grande e mísero destino!

 

Mário Margaride


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

QUANDO A ESTUPIDEZ INSISTE EM FALAR

 

A estupidez fala alto

não porque saiba mais

mas porque o silêncio do bom senso

não compete com o grito


Ela marcha de peito inchado

orgulhosa da própria ignorância

confundindo convicção

com verdade


O bom senso senta-se no seu canto

espera, pondera, respira

não viraliza

não provoca aplausos fáceis

não cabe em frases curtas


A razão tenta argumentar

com dados, lógica e cuidado

mas tropeça na pressa

na vaidade que não escuta

na certeza vazia

de quem não duvida

e tem a arrogância que tudo sabe


E assim a estupidez reina

simples, confortável, absoluta

não pergunta, afirma

não aprende, repete


Enquanto isso

o pensamento crítico

vira suspeito

a dúvida vira fraqueza

e pensar demais

passa a ser defeito


Mas ainda há resistência

um olhar atento

uma pausa antes do julgamento

uma mente que aceita não saber


São sementes frágeis

é verdade

mas é delas que nasce um futuro

que valha a pena viver.


Mário Margaride

29-01-2026




segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

CULPA DO QUE NÃO FOI

                                              

                    Há culpas que não gritam

não quebram nada

não deixam marcas visíveis


Sentam-se quietas ao nosso lado

e perguntam, baixinho

“E se?”

É a culpa do silêncio

quando a voz era necessária

do abraço que ficou nos braços

do “fica” engolido

do “eu te amo” adiado

até ser demasiado tarde


Culpa estranha essa

que não nasce do erro

mas da ausência


Do passo que não demos

por medo do chão

do risco que evitámos

para salvar uma paz

que nunca foi inteira


Ela pesa de forma diferente

não dói no momento

dói depois


Dói quando o tempo passa

e percebemos

que não fazer

também foi uma escolha


Carregamos fantasmas

do que poderíamos ter sido

do que quase dissemos

do que quase salvámos

do que quase fizemos


Talvez viver seja isso

aprender que a culpa maior

não é cair

mas nunca ter tentado voar.


Mário Margaride

                             25-01-2026