Haverá um dia
em que percebemos
que o espelho já não devolve
inteiramente quem fomos
Não acontece de repente
é uma pequena ruga
um movimento que já exige mais cuidado
um cansaço que chega antes da vontade
uma palavra que demora a encontrar
o caminho até à boca
E então começamos a perceber
que o tempo não passa apenas pelos relógios
passa por dentro de nós
O corpo
outrora obediente
começa a não colaborar com a nossa vontade
Mas talvez a maior transformação
não esteja no corpo
mas na consciência
Porque envelhecer
é assistir em silêncio
à lenta despedida de algumas certezas
E nós, humanos
que passámos a vida a acreditar
que controlávamos o caminho
descobrimos finalmente
que há estradas que não escolhemos
Porque o tempo não pede licença
não pergunta se estamos preparados
não espera que aceitemos
simplesmente avança
E talvez seja isso
que mais nos assusta
não o cabelo branco
não a pele marcada
não os músculos que cedem
mas a possibilidade de um dia
precisarmos da mão de alguém
para fazer aquilo que antes
fazíamos sozinhos
Porque dentro de cada corpo envelhecido
continua a viver alguém que já foi jovem
que amou, lutou, sonhou, caiu, levantou-se
que carregou o mundo às costas
quando ainda acreditava
que o mundo lhe pertencia
Aceitar que envelhecer
não é uma derrota
mas a última transformação
de quem teve o privilégio
de permanecer vivo
Envelhecer é perder algumas forças
sim, é verdade
mas também é ganhar
uma coisa que a juventude raramente conhece
a consciência de que cada dia
não é apenas mais um dia
é um dia a menos
Nada podemos fazer contra o tempo
podemos apenas caminhar com ele
e viver cada dia
como se fosse o último das nossas vidas.
Mário Margaride
15-08-2026




