Dói-me o silêncio da indiferença
quando a dor vagueia sem parar
quando as armas buscam suas presas
e a morte se espalha pelo ar
Há crianças que aprendem a contar
não estrelas
mas bombas que caem do céu
Há mães que abraçam os filhos
como quem tenta esconder o medo
debaixo dos próprios braços
Há homens que procuram
entre ruínas
um nome, um rosto, uma vida
qualquer pedaço de ontem
que a guerra não tenha levado
E há fome
Fome que não pede discursos
nem tratados
nem bandeiras erguidas ao vento
pede apenas pão, água
um lugar onde dormir
sem acordar ao som da morte
E quando a dor atravessa fronteiras
quando o mundo inteiro vê
quando a humanidade grita
eles desviam o olhar
Assobiam para o lado
São os senhores da guerra e do mundo
donos de decisões tomadas
à distância da lágrima
do sangue e da miséria
Acendem o fogo
e depois fecham as janelas
para não sentirem o fumo
como se não ouvissem
o som das bombas
o choro de uma criança
como se não vissem...
o corpo de um inocente
E dentro de nós cresce a revolta
porque há uma dor que não é apenas nossa
é a dor de sabermos
que tanta gente sofre
enquanto alguns poderiam impedir
e simplesmente não o fazem
Assobiam para o lado
Porque enquanto houver alguém
que ainda sinta a dor do outro
enquanto houver uma voz
que se levante contra a violência
enquanto houver um coração
que se recuse a aceitar
a fome como destino
Os senhores da guerra
podem dominar territórios
podem comprar silêncios
podem mandar exércitos
mas nunca serão donos
daquilo que ainda nos resta
de humanidade.
Mário Margaride
12-09-2026




