Há venenos que não têm cor
nem cheiro, nem sabor
não se derramam em copos
nem se escondem em alimentos
Espalham-se, silenciosos
por ecrãs iluminados
por palavras apressadas
por imagens manipuladas
e por títulos que apelam mais à emoção
do que à verdade
As notícias falsas
não atacam apenas a inteligência
infiltram-se na consciência
alimentam medos inexistentes
fortalecem preconceitos adormecidos
semeiam a desconfiança entre amigos
famílias e povos
E, sem darmos conta
começamos a acreditar que o enganar é sabedoria
que o boato é certeza
e que a mentira, repetida mil vezes
se transforma em realidade
Então
o comportamento muda
a serenidade dá lugar à impulsividade
o diálogo cede espaço ao julgamento
a dúvida saudável
é substituída pela convicção cega
passamos a agir convencidos
de que defendemos o correto
quando, afinal
caminhamos guiados por sombras
A desinformação é um veneno lento
não destrói o corpo
mas enfraquece o espírito crítico
e faz-nos confundir opinião com facto
emoção com evidência
ruído com conhecimento
Mas há um antídoto
chama-se verificação
diálogo e procura honesta da verdade
porque uma sociedade não se fortalece
pela quantidade de informação que consome
mas pela qualidade daquilo em que escolhe acreditar
No fim
a maior batalha não é travada nas redes sociais
mas dentro de cada consciência
é aí que a verdade encontra o seu lugar
ou é vencida pelo cómodo encanto da ilusão.
Mário Margaride
31-07-2026




