Há cidades que se visitam
e há cidades que nos visitam por dentro
o Porto é assim
Ergue-se sobre o Douro
entre pedras antigas e águas que levam histórias
com as suas pontes suspensas no horizonte
e as casas encostadas umas às outras
como se o tempo tivesse construído
um abraço de granito sobre o rio
É cidade de beleza sem artifícios
de ruas que sobem e descem
carregadas de memórias
de fachadas gastas pelo tempo
onde cada janela parece guardar
uma vida, uma saudade, uma história
E há o Douro…
sereno, profundo
refletindo nas suas águas
as cores da cidade
as luzes do entardecer
o movimento das gentes
e esse céu que tantas vezes
parece feito à medida do Porto
Mas o Porto não vive apenas dos olhos
vive dos sabores
do caldo verde fumegante
da francesinha que desafia a fome
do peixe que chega à mesa
com o cheiro salgado do Atlântico
do vinho que nasce nas encostas do Douro
e encontra na cidade
a sua mais nobre celebração
No Porto, uma frase, uma palavra
pode parecer dura
e, ainda assim, esconder ternura e carinho
Um "anda daí!"
pode ser um convite
um "estás bem?"
pode significar muito mais
do que uma simples pergunta
Porque o portuense tem essa particularidade
pode receber-nos com uma frase breve
um sorriso discreto
um comentário mordaz
É um povo diverso
feito de gerações, sotaques, culturas
vidas que chegam, vidas que partem
e outras que ficam para sempre
Um povo que conhece a dureza da vida
mas que não perdeu
a capacidade de acolher
Ela está nas pedras
nas varandas
nos barcos
nas pontes
nas mesas cheias
nas vozes que atravessam as ruas
nos olhos de quem chega
e, quase sem perceber
começa a sentir que lhe pertence
Porto…
Cidade de granito e de poesia
de trabalho e de boémia
de tradição e mudança
de saudade e esperança
E fica em cada visitante
uma certeza difícil de explicar
há cidades que conhecemos com os olhos
o Porto conhece-se com o coração.
Mário Margaride
20-08-2026
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RUI VELOSO
PORTO SENTIDO




