TODOS OS TEXTOS AQUI POSTADOS TÊM DIREITOS DE AUTOR. É EXPRESSAMENTE PROIBIDO COPIAR OU COLAR QUALQUER TEXTO AQUI EXPOSTO SEM O CONSENTIMENTO DO AUTOR.

sábado, 22 de agosto de 2026

PORTO-CIDADE GRANÍTICA-FEITA DE ALMA E CORAÇÃO

  

Há cidades que se visitam

e há cidades que nos visitam por dentro

o Porto é assim

 

Ergue-se sobre o Douro

entre pedras antigas e águas que levam histórias

com as suas pontes suspensas no horizonte

e as casas encostadas umas às outras

como se o tempo tivesse construído

um abraço de granito sobre o rio

 

É cidade de beleza sem artifícios

de ruas que sobem e descem

carregadas de memórias

de fachadas gastas pelo tempo

onde cada janela parece guardar

uma vida, uma saudade, uma história

 

E há o Douro…

sereno, profundo

refletindo nas suas águas

as cores da cidade

as luzes do entardecer

o movimento das gentes

e esse céu que tantas vezes

parece feito à medida do Porto

 

Mas o Porto não vive apenas dos olhos

vive dos sabores

do caldo verde fumegante

da francesinha que desafia a fome

do peixe que chega à mesa

com o cheiro salgado do Atlântico

do vinho que nasce nas encostas do Douro

e encontra na cidade

a sua mais nobre celebração

 

No Porto, uma frase, uma palavra

pode parecer dura

e, ainda assim, esconder ternura e carinho

 

Um "anda daí!"

pode ser um convite

um "estás bem?"

pode significar muito mais

do que uma simples pergunta

 

Porque o portuense tem essa particularidade

pode receber-nos com uma frase breve

um sorriso discreto

um comentário mordaz

 

É um povo diverso

feito de gerações, sotaques, culturas

vidas que chegam, vidas que partem

e outras que ficam para sempre

 

Um povo que conhece a dureza da vida

mas que não perdeu

a capacidade de acolher

 

Ela está nas pedras

nas varandas

nos barcos

nas pontes

nas mesas cheias

nas vozes que atravessam as ruas

nos olhos de quem chega

e, quase sem perceber

começa a sentir que lhe pertence

 

Porto…

Cidade de granito e de poesia

de trabalho e de boémia

de tradição e mudança

de saudade e esperança

 

E fica em cada visitante

uma certeza difícil de explicar

há cidades que conhecemos com os olhos

o Porto conhece-se com o coração.

 

Mário Margaride

20-08-2026

****************************


                                                           RUI VELOSO

PORTO SENTIDO

domingo, 16 de agosto de 2026

QUANDO O TEMPO NOS MUDA

  

Haverá um dia 

em que percebemos

que o espelho já não devolve

inteiramente quem fomos

 

Não acontece de repente

é uma pequena ruga

um movimento que já exige mais cuidado

um cansaço que chega antes da vontade

uma palavra que demora a encontrar

o caminho até à boca

 

E então começamos a perceber

que o tempo não passa apenas pelos relógios

passa por dentro de nós

 

O corpo

outrora obediente

começa a não colaborar com a nossa vontade

 

Mas talvez a maior transformação

não esteja no corpo

mas na consciência

 

Porque envelhecer

é assistir em silêncio

à lenta despedida de algumas certezas

 

E nós, humanos

que passámos a vida a acreditar

que controlávamos o caminho

descobrimos finalmente

que há estradas que não escolhemos

 

Porque o tempo não pede licença

não pergunta se estamos preparados

não espera que aceitemos

simplesmente avança

 

E talvez seja isso

que mais nos assusta

não o cabelo branco

não a pele marcada

não os músculos que cedem

mas a possibilidade de um dia

precisarmos da mão de alguém

para fazer aquilo que antes

fazíamos sozinhos

 

Porque dentro de cada corpo envelhecido

continua a viver alguém que já foi jovem

que amou, lutou, sonhou, caiu, levantou-se

que carregou o mundo às costas

quando ainda acreditava

que o mundo lhe pertencia

 

Aceitar que envelhecer

não é uma derrota

mas a última transformação

de quem teve o privilégio

de permanecer vivo

 

Envelhecer é perder algumas forças

sim, é verdade

mas também é ganhar

uma coisa que a juventude raramente conhece

a consciência de que cada dia

não é apenas mais um dia

é um dia a menos

 

Nada podemos fazer contra o tempo

podemos apenas caminhar com ele

e viver cada dia

como se fosse o último das nossas vidas.

 

Mário Margaride

15-08-2026


terça-feira, 11 de agosto de 2026

A TERRA NÃO ESQUECE

  

Um dia

a Terra há de perguntar-nos

por que razão confundimos progresso

com destruição

riqueza com desperdício

e poder com domínio

 

Perguntará pelos rios envenenados

pelas florestas reduzidas a cinza

pelos oceanos sufocados

sob o peso do plástico

e da nossa ganância

 

Perguntará pelas árvores

que tombaram sem voz

pelos animais que desapareceram

antes que os nossos olhos

aprendessem a reconhecê-los

pelas espécies condenadas

à memória de quem já não as verá

 

E talvez então percebamos

que o fogo que queimava as florestas

não era apenas fogo

era um aviso

 

Que o gelo que desaparecia

não era apenas gelo

era o silêncio

de um planeta a perder o equilíbrio

 

Que os mares que avançavam

sobre cidades e aldeias

não eram apenas água

eram a resposta

de uma natureza empurrada

para além dos seus limites

 

Furacões, secas, incêndios

chuvas que chegam como muralhas

calor que transforma o ar

numa fornalha invisível

terras onde a vida já luta

por uma gota de água

 

E no meio de tudo isto

há seres humanos correndo

fugindo

chorando pelos mortos

procurando nas ruínas

onde antes existiam casas

 

A Terra não está a vingar-se

está a reagir

 

Nós é que esquecemos

que a natureza não é nossa propriedade

e que somos apenas hóspedes

numa casa que julgámos eterna

 

Enchemos os céus de fumo

e perguntamos por que razão

o clima enlouqueceu

 

Ferimos o planeta

e chamámos-lhe acidente

quando ele começou a sangrar

 

Porque a Terra continuará

talvez sem nós

e essa será a mais terrível das ironias

não somos nós que estamos a salvar o planeta

é o planeta que

apesar de tudo

ainda nos está a dar uma última oportunidade

para salvarmos a nós próprios.

 

Mário Margaride

09-08-2026


 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

QUANDO A JUSTIÇA CHEGA TARDE

 

Há casas que não são lares

são prisões sem grades

onde o medo aprende

a respirar em silêncio

 

Nas paredes

o eco dos gritos

mistura-se com o choro abafado

de mulheres de alma rasgada

de crianças

a quem roubaram a inocência

de idosos

que envelhecem sob o peso

da humilhação

 

As mãos que deviam acariciar

transformam-se em punhos

as palavras

que nasceram para amar

vestem-se de insultos

e tornam-se lâminas invisíveis

 

A noite fecha os olhos

mas não consegue esconder

as nódoas negras da dignidade

e cada hematoma

é uma página escrita

na pele da esperança

 

E a Justiça...

quantas vezes chega tarde?

quantas vezes caminha

com passos demasiado lentos

enquanto o carrasco

continua livre

respirando o mesmo ar

que sufoca quem sobrevive?

 

Há sentenças que nunca chegam

há processos que se perdem

há vítimas que desistem

antes de serem ouvidas

porque o cansaço

também é uma forma de morrer

 

Mas cada silêncio quebrado

é uma centelha

cada denúncia

é uma porta entreaberta

para um amanhã

menos sombrio

 

Que a lei não seja apenas tinta

sobre folhas esquecidas

mas um escudo erguido

contra a barbárie

 

E enquanto houver

uma única mulher

uma única criança

um único idoso

a viver com medo

dentro da própria casa

a nossa consciência

continuará sentada

no banco dos réus.

 

Mário Margaride

06-08-2026


sexta-feira, 31 de julho de 2026

O VENENO INVISÍVEL DA DESINFORMAÇÃO

  

Há venenos que não têm cor

nem cheiro, nem sabor

não se derramam em copos

nem se escondem em alimentos

 

Espalham-se, silenciosos

por ecrãs iluminados

por palavras apressadas

por imagens manipuladas

e por títulos que apelam mais à emoção

do que à verdade

 

As notícias falsas

não atacam apenas a inteligência

infiltram-se na consciência

alimentam medos inexistentes

fortalecem preconceitos adormecidos

semeiam a desconfiança entre amigos

famílias e povos

 

E, sem darmos conta

começamos a acreditar que o enganar é sabedoria

que o boato é certeza

e que a mentira, repetida mil vezes

se transforma em realidade

 

Então 

o comportamento muda

a serenidade dá lugar à impulsividade

o diálogo cede espaço ao julgamento

a dúvida saudável 

é substituída pela convicção cega

passamos a agir convencidos 

de que defendemos o correto

quando, afinal

caminhamos guiados por sombras

 

A desinformação é um veneno lento

não destrói o corpo

mas enfraquece o espírito crítico

e faz-nos confundir opinião com facto

emoção com evidência

ruído com conhecimento

 

Mas há um antídoto

chama-se verificação

diálogo e procura honesta da verdade

porque uma sociedade não se fortalece

pela quantidade de informação que consome

mas pela qualidade daquilo em que escolhe acreditar

 

No fim

a maior batalha não é travada nas redes sociais

mas dentro de cada consciência

é aí que a verdade encontra o seu lugar

ou é vencida pelo cómodo encanto da ilusão.

 

Mário Margaride

31-07-2026