Não chegam com gritos de guerra
nem com bandeiras ao vento erguidas
chegam em passos suaves, de veludo
por entre palavras polidas
Vestem a mentira de lógica
dão-lhe um rosto respeitável
e repetem-na tantas vezes
que parece inevitável
Não negam a luz de repente
apagariam suspeitas demais
preferem cobri-la de névoa
com subtis sinais
É um bombardeamento constante
gota a gota sobre a razão
até que a falsidade se acomode
como hóspede no coração
Os factos tornam-se incómodos
pedras no caminho traçado
por isso são contornados em silêncio
retocados, reorganizados
com enorme devoção
E quem procura a verdade
entre o ruído e a encenação
vê-se perdido num labirinto
sem mapa, sem direção
Pois a fraude mais perigosa
não é a que se impõe pela força
é a que se insinua mansa
e a cada dúvida, reforça a ilusão
Mas a verdade tem raízes profundas
mesmo sob camadas de engano
pode ser abafada por um tempo
mas não desaparece do quotidiano
E um dia, por entre as ruínas
das narrativas construídas
ergue-se nua e persistente
para cobrar contas às mentiras
Porque a sombra pode ser longa
e ocultar o sol por instantes
mas nenhuma noite fabricada
vence para sempre os seus diamantes.
Mário Margaride
05-06-2026




