Há um idioma que não se aprende nos livros
nem se conjuga em verbos
vive na pele
o abraço
É ponte lançada quando as palavras desabam
é casa improvisada no meio da tempestade
é teto de braços cobrindo
a nudez do medo
E quando o mundo pesa nos ombros
e a coragem se esconde em algum canto escuro
um abraço chega
como quem diz
“Fica, eu aguento contigo”
Ele não resolve contas
não desfaz perdas
não apaga ausências
mas sustenta o que ameaça ruir
Há fragilidades que só se atravessam assim
peito contra peito
coração ouvindo coração
respirações tentando encontrar
um mesmo ritmo
No abraço
a dor deixa de ser solitária
divide-se
e, ao dividir-se
fica menor
É estranho
como dois corpos podem criar
um espaço onde o medo se aquieta
e a esperança reaprende a caminhar
E em momentos de queda
o abraço não é fuga
é raiz
é lembrança silenciosa
de que ninguém precisa ser forte
o tempo todo
Porque há dias
em que a maior forma de coragem
é simplesmente
deixar-se envolver.
Mário Margaride




