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segunda-feira, 23 de março de 2026

SERÁ QUE O AMOR VENCERÁ?

  

E se o amor, cansado de esperar

erguer a voz no meio do ruído

e disser ao ódio, sem gritar

“já chega de fazer do mundo um ferido”?

 

E se tocar a estupidez cega

não com desprezo, mas com luz

como quem, paciente, entrega

um caminho novo a quem não o conduz?

 

E se a raiva, chama desmedida

encontrar no amor um mar sereno

onde afogue a fúria incontida

e renasça em gesto mais ameno?

 

E se a guerra, feita de aço e dor

ouvir, por fim, o silêncio do abraço

e perceber que há mais valor

num encontro do que em qualquer cansaço?

 

E a ganância, trono vazio, frio

que promete tudo e nada dá

será que treme ao ver o fio

de um amor que nada quer, mas tudo dá?

 

Talvez o amor não vença de repente

nem cale o mundo num só instante

mas cresce, invisível, lentamente

no gesto simples, firme, constante

 

E se não vencer de uma vez só

vencerá aos poucos, em cada coração

porque onde o amor desfaz o nó

em cada um de nós

Talvez aí, quem sabe

comece a revolução.

 

Mário Margaride

22-03-2026


sexta-feira, 20 de março de 2026

O TRIUNFO DO RUÍDO

 

Ergue-se alto o grito oco

mais alto que a razão contida

um eco vazio, rouco

governando a mente perdida

 

A ideia calma é abafada

num mar de certezas gritadas

onde a dúvida é condenada

e as perguntas são apagadas

 

Vestem-se de convicção

os frágeis fios da ignorância

e chamam força à ilusão

de quem rejeita a distância

 

Distância de refletir

de pesar o certo e o errado

preferem logo ferir

do que ouvir o outro lado

 

E assim se tece o caos

não por falta de saber

mas por fechar os portais

a tudo o que é compreender

 

Não é a ausência de luz

que mergulha o mundo na escuridão

mas a mão que a própria reduz

com soberba e negação

 

E no meio do ruído imenso

onde o absurdo faz lei

ser lúcido é quase um incenso

que poucos queimam, eu sei.

 

Mário Margaride

19-03-2026


segunda-feira, 16 de março de 2026

QUANDO A SOLIDÃO É A NOSSA COMPANHEIRA

  

Nesta solidão onde me sento

a casa continua a respirar

mesmo quando ninguém responde

há copos que já não tilintam

cadeiras que aprenderam a esperar

 

Nos cantos da manhã

a luz entra devagar

como quem pede licença

a um coração que já foi festa

 

Houve um tempo

em que o telefone era um pássaro inquieto

em que nomes diferentes

habitavam os meus dias

como estações do ano

 

Amei com pressa

com incêndios

com promessas ditas de madrugada

que pareciam eternas

até à próxima despedida

 

Agora o silêncio

é um companheiro disciplinado

senta-se comigo à mesa

caminha ao meu lado na rua

deita-se na metade intacta da cama

 

Às vezes pergunto-me

se a solidão nasce

ou se cresce

nas cinzas de tantos abraços

 

Porque quem viveu rodeado de amor e paixão

não aprende facilmente

a arte de estar só

 

Fica-nos o eco

um riso no corredor da memória

um perfume que não regressa

uma palavra que ainda sabe

o caminho de volta ao peito

 

E no entanto

todos os dias acordo

e preparo café para um

 

Não é tristeza

é apenas a lenta aprendizagem

de existir

sem tempestades no coração.

 

Mário Margaride

12-03-2026


sexta-feira, 13 de março de 2026

AS COISAS QUE FICAM

 As saudades chegam devagar  

como quem pousa a mão no ombro  

e diz sem voz: "ainda estou aqui"  

 

Trazem o cheiro de um dia antigo  

um riso que já não ouvimos  

um nome que o tempo não apagou  

 

E nós seguimos  

mas nunca sozinhos  

há memórias que caminham ao nosso lado  

fiéis como sombras ao sol da tarde  

 

Às vezes doem  

às vezes aquecem  

mas sempre nos lembram  

que fomos feitos de encontros  

de perdas  

de instantes que não voltam  

e, mesmo assim, permanecem  

 

Porque viver é isto  

guardar dentro do peito  

um pequeno museu de eternidades  

onde cada lembrança  

é uma janela aberta  

para tudo o que nos moldou  

 

E quando a noite cai  

e o silêncio se estende  

é nelas que encontramos  

a prova mais simples  

de que sentir  

é a forma mais humana  

de existir.

 

Mário Margaride

11-03-2026


segunda-feira, 9 de março de 2026

SUSSURROS


As pedras sussurram quando as piso

Sussurrando entre si em tons difusos

Como se de repente...

Se esquecessem das palavras

Que estavam a dizer

 

O vento sopra de mansinho

Com medo de poder acordar-me do meu sonho

Neste torpor enfadonho que me inquieta

Nesta correria desenfreada

Que varre as minhas entranhas

Até ao mais profundo do meu ser...

 

Mário Margaride