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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

AQUELE ABRAÇO

 

Há um idioma que não se aprende nos livros

nem se conjuga em verbos

vive na pele

o abraço

 

É ponte lançada quando as palavras desabam

é casa improvisada no meio da tempestade

é teto de braços cobrindo

a nudez do medo

 

E quando o mundo pesa nos ombros

e a coragem se esconde em algum canto escuro

um abraço chega

como quem diz

“Fica, eu aguento contigo”

 

Ele não resolve contas

não desfaz perdas

não apaga ausências

mas sustenta o que ameaça ruir

 

Há fragilidades que só se atravessam assim

peito contra peito

coração ouvindo coração

respirações tentando encontrar

um mesmo ritmo

 

No abraço

a dor deixa de ser solitária

divide-se

e, ao dividir-se

fica menor

 

É estranho

como dois corpos podem criar

um espaço onde o medo se aquieta

e a esperança reaprende a caminhar

 

E em momentos de queda

o abraço não é fuga

é raiz

é lembrança silenciosa

de que ninguém precisa ser forte

o tempo todo

 

Porque há dias

em que a maior forma de coragem

é simplesmente

deixar-se envolver.

 

Mário Margaride


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

PARTÍCULAS AO VENTO

  

São pequenas partículas

que o vento arrastou pelo ar

ninguém as consegue ver

mas vieram para ficar

 

Não têm cor nem têm brilho

mas têm a força inquietante

para nos causar imensa dor

a todo e qualquer instante

 

Vagueiam em voo livre

pelos céus da intolerância

não têm coleira ou trela

seguem pelos céus da ganância

 

E neste percurso Infindável

nas estradas sem sinais

as partículas se alastram

neste mar de vendavais

 

E os ventos fustigando

em todas as direções

deixam marcas bem profundas

na raiz dos corações.

 

Mário Margaride


 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A VOZ E A FORÇA DESTRUIDORA DA NATUREZA


Quando o céu se rasga em gritos de trovão

a noite desce mais cedo sobre as casas

o vento aprende nomes

chama por portas mal fechadas

arranca telhados como quem arranca memórias

 

A chuva não cai, invade

entra pelas ruas

pelos pulmões da terra

leva fotografias

cartas antigas

o pouco pão que sobrou na mesa

 

Cada gota pesa como um presságio

as árvores tombam em silêncio brutal

os rios esquecem as margens

e a água, que antes dava vida

agora cobra dívidas antigas

com juros de medo e lama

 

Há vozes presas nos andares baixos

olhos acesos na escuridão

mãos que seguram crianças

como se segurassem o próprio mundo

à beira de se desfazer

 

E entre escombros e sirenes cansadas

as populações aprendem de novo

a palavra recomeço


É pesada, frágil, mas necessária

para reconstruir abrigo

com o que restou

 

Quando a tempestade partir

não leva só nuvens

fica o chão ferido

ficam os nomes por contar

fica o eco dos que não voltam mais...

 

Mário Margaride

05-01-2026


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

VOZ DO SILÊNCIO

  

No silêncio da noite

onde o meu corpo tão cansado

nos lençóis se deita

o sono o engole, destroçado

num silêncio onde os sonhos, o enfeita

 

Amo todos os sonhos que se calam

de corações que sentem e não falam

tudo que é infinito e pequenino!

 

Asa que nos protege a todos nós

soluço imenso, eterno, que é a voz

do nosso grande e mísero destino!

 

Mário Margaride


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

QUANDO A ESTUPIDEZ INSISTE EM FALAR

 

A estupidez fala alto

não porque saiba mais

mas porque o silêncio do bom senso

não compete com o grito


Ela marcha de peito inchado

orgulhosa da própria ignorância

confundindo convicção

com verdade


O bom senso senta-se no seu canto

espera, pondera, respira

não viraliza

não provoca aplausos fáceis

não cabe em frases curtas


A razão tenta argumentar

com dados, lógica e cuidado

mas tropeça na pressa

na vaidade que não escuta

na certeza vazia

de quem não duvida

e tem a arrogância que tudo sabe


E assim a estupidez reina

simples, confortável, absoluta

não pergunta, afirma

não aprende, repete


Enquanto isso

o pensamento crítico

vira suspeito

a dúvida vira fraqueza

e pensar demais

passa a ser defeito


Mas ainda há resistência

um olhar atento

uma pausa antes do julgamento

uma mente que aceita não saber


São sementes frágeis

é verdade

mas é delas que nasce um futuro

que valha a pena viver.


Mário Margaride

29-01-2026