Há casas que não são lares
são prisões sem grades
onde o medo aprende
a respirar em silêncio
Nas paredes
o eco dos gritos
mistura-se com o choro abafado
de mulheres de alma rasgada
de crianças
a quem roubaram a inocência
de idosos
que envelhecem sob o peso
da humilhação
As mãos que deviam acariciar
transformam-se em punhos
as palavras
que nasceram para amar
vestem-se de insultos
e tornam-se lâminas invisíveis
A noite fecha os olhos
mas não consegue esconder
as nódoas negras da dignidade
e cada hematoma
é uma página escrita
na pele da esperança
E a Justiça...
quantas vezes chega tarde?
quantas vezes caminha
com passos demasiado lentos
enquanto o carrasco
continua livre
respirando o mesmo ar
que sufoca quem sobrevive?
Há sentenças que nunca chegam
há processos que se perdem
há vítimas que desistem
antes de serem ouvidas
porque o cansaço
também é uma forma de morrer
Mas cada silêncio quebrado
é uma centelha
cada denúncia
é uma porta entreaberta
para um amanhã
menos sombrio
Que a lei não seja apenas tinta
sobre folhas esquecidas
mas um escudo erguido
contra a barbárie
E enquanto houver
uma única mulher
uma única criança
um único idoso
a viver com medo
dentro da própria casa
a nossa consciência
continuará sentada
no banco dos réus.
Mário Margaride
06-08-2026

Este poema é um apelo poderoso e urgente à justiça social, à empatia e à proteção dos direitos humanos fundamentais. O poeta destaca que a violência doméstica e a falta de segurança familiar não são problemas privados, mas sim uma falha coletiva da sociedade.
ResponderEliminar