TODOS OS TEXTOS AQUI POSTADOS TÊM DIREITOS DE AUTOR. É EXPRESSAMENTE PROIBIDO COPIAR OU COLAR QUALQUER TEXTO AQUI EXPOSTO SEM O CONSENTIMENTO DO AUTOR.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

QUANDO A JUSTIÇA CHEGA TARDE

 

Há casas que não são lares

são prisões sem grades

onde o medo aprende

a respirar em silêncio

 

Nas paredes

o eco dos gritos

mistura-se com o choro abafado

de mulheres de alma rasgada

de crianças

a quem roubaram a inocência

de idosos

que envelhecem sob o peso

da humilhação

 

As mãos que deviam acariciar

transformam-se em punhos

as palavras

que nasceram para amar

vestem-se de insultos

e tornam-se lâminas invisíveis

 

A noite fecha os olhos

mas não consegue esconder

as nódoas negras da dignidade

e cada hematoma

é uma página escrita

na pele da esperança

 

E a Justiça...

quantas vezes chega tarde?

quantas vezes caminha

com passos demasiado lentos

enquanto o carrasco

continua livre

respirando o mesmo ar

que sufoca quem sobrevive?

 

Há sentenças que nunca chegam

há processos que se perdem

há vítimas que desistem

antes de serem ouvidas

porque o cansaço

também é uma forma de morrer

 

Mas cada silêncio quebrado

é uma centelha

cada denúncia

é uma porta entreaberta

para um amanhã

menos sombrio

 

Que a lei não seja apenas tinta

sobre folhas esquecidas

mas um escudo erguido

contra a barbárie

 

E enquanto houver

uma única mulher

uma única criança

um único idoso

a viver com medo

dentro da própria casa

a nossa consciência

continuará sentada

no banco dos réus.

 

Mário Margaride

06-08-2026


1 comentário:

  1. Este poema é um apelo poderoso e urgente à justiça social, à empatia e à proteção dos direitos humanos fundamentais. O poeta destaca que a violência doméstica e a falta de segurança familiar não são problemas privados, mas sim uma falha coletiva da sociedade.

    ResponderEliminar