Há amores que chegam
entram devagar na casa da alma
como quem traz abrigo
como quem conhece o nome secreto
de todas as nossas feridas
E nós acreditamos
Ah, como acreditamos
Porque a ilusão
quando se veste de amor verdadeiro
não parece mentira
parece destino
Ela aprende os nossos silêncios
decora os nossos vazios
acende pequenas lanternas
nos corredores escuros do peito
E então caminhamos
descalços
entregues
convencidos
de que finalmente
a felicidade deixou de ser horizonte
para virar morada
Mas há promessas
que nascem já partidas
Há braços que abraçam
com a mesma força
com que empurram depois
E um dia
sem aviso
o amor que jurava salvar-nos
transforma-se na pedra
amarrada aos tornozelos da esperança
Tudo começa a ruir devagar
os sonhos primeiro
depois a confiança
depois aquela luz tranquila
que tínhamos no olhar
A felicidade
torna-se estrada interrompida
uma ponte suspensa sobre o vazio
E nós, no meio dela
tentando entender
em que instante o paraíso
aprendeu a ferir
Talvez o pior da ilusão
não seja a mentira
Talvez seja o facto
de ela usar exatamente o rosto
daquilo que mais desejávamos encontrar
E ainda assim…
mesmo depois dos escombros
há qualquer coisa dentro de nós
que continua respirando baixo
quase em segredo
Porque o coração
esse teimoso
mesmo devastado
nunca deixa completamente
de acreditar na manhã seguinte
E talvez seja aí
entre os destroços do engano
que a verdadeira felicidade
recomece
não como sonho perfeito
mas como alguém que aprendeu
a sobreviver à tempestade
sem deixar morrer a ternura.
Mário Margaride
20-05-2026

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