Nesta solidão onde me sento
a casa continua a respirar
mesmo quando ninguém responde
há copos que já não tilintam
cadeiras que aprenderam a esperar
Nos cantos da manhã
a luz entra devagar
como quem pede licença
a um coração que já foi festa
Houve um tempo
em que o telefone era um pássaro inquieto
em que nomes diferentes
habitavam os meus dias
como estações do ano
Amei com pressa
com incêndios
com promessas ditas de madrugada
que pareciam eternas
até à próxima despedida
Agora o silêncio
é um companheiro disciplinado
senta-se comigo à mesa
caminha ao meu lado na rua
deita-se na metade intacta da cama
Às vezes pergunto-me
se a solidão nasce
ou se cresce
nas cinzas de tantos abraços
Porque quem viveu rodeado de amor e paixão
não aprende facilmente
a arte de estar só
Fica-nos o eco
um riso no corredor da memória
um perfume que não regressa
uma palavra que ainda sabe
o caminho de volta ao peito
E no entanto
todos os dias acordo
e preparo café para um
Não é tristeza
é apenas a lenta aprendizagem
de existir
sem tempestades no coração.
Mário Margaride
12-03-2026








