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segunda-feira, 16 de março de 2026

QUANDO A SOLIDÃO É A NOSSA COMPANHEIRA

  

Nesta solidão onde me sento

a casa continua a respirar

mesmo quando ninguém responde

há copos que já não tilintam

cadeiras que aprenderam a esperar

 

Nos cantos da manhã

a luz entra devagar

como quem pede licença

a um coração que já foi festa

 

Houve um tempo

em que o telefone era um pássaro inquieto

em que nomes diferentes

habitavam os meus dias

como estações do ano

 

Amei com pressa

com incêndios

com promessas ditas de madrugada

que pareciam eternas

até à próxima despedida

 

Agora o silêncio

é um companheiro disciplinado

senta-se comigo à mesa

caminha ao meu lado na rua

deita-se na metade intacta da cama

 

Às vezes pergunto-me

se a solidão nasce

ou se cresce

nas cinzas de tantos abraços

 

Porque quem viveu rodeado de amor e paixão

não aprende facilmente

a arte de estar só

 

Fica-nos o eco

um riso no corredor da memória

um perfume que não regressa

uma palavra que ainda sabe

o caminho de volta ao peito

 

E no entanto

todos os dias acordo

e preparo café para um

 

Não é tristeza

é apenas a lenta aprendizagem

de existir

sem tempestades no coração.

 

Mário Margaride

12-03-2026


sexta-feira, 13 de março de 2026

AS COISAS QUE FICAM

 As saudades chegam devagar  

como quem pousa a mão no ombro  

e diz sem voz: "ainda estou aqui"  

 

Trazem o cheiro de um dia antigo  

um riso que já não ouvimos  

um nome que o tempo não apagou  

 

E nós seguimos  

mas nunca sozinhos  

há memórias que caminham ao nosso lado  

fiéis como sombras ao sol da tarde  

 

Às vezes doem  

às vezes aquecem  

mas sempre nos lembram  

que fomos feitos de encontros  

de perdas  

de instantes que não voltam  

e, mesmo assim, permanecem  

 

Porque viver é isto  

guardar dentro do peito  

um pequeno museu de eternidades  

onde cada lembrança  

é uma janela aberta  

para tudo o que nos moldou  

 

E quando a noite cai  

e o silêncio se estende  

é nelas que encontramos  

a prova mais simples  

de que sentir  

é a forma mais humana  

de existir.

 

Mário Margaride

11-03-2026


segunda-feira, 9 de março de 2026

SUSSURROS


As pedras sussurram quando as piso

Sussurrando entre si em tons difusos

Como se de repente...

Se esquecessem das palavras

Que estavam a dizer

 

O vento sopra de mansinho

Com medo de poder acordar-me do meu sonho

Neste torpor enfadonho que me inquieta

Nesta correria desenfreada

Que varre as minhas entranhas

Até ao mais profundo do meu ser...

 

Mário Margaride


sexta-feira, 6 de março de 2026

A FORÇA DA VERDADE


Há dias em que a mentira

veste roupas simples

e caminha entre nós

como se fosse necessária

 

Pequenas omissões

silêncios convenientes

histórias dobradas ao meio

para caberem no conforto

 

Mas a verdade

não sabe viver dobrada

nasce reta

como a luz da manhã

que entra pela janela

mesmo quando as cortinas

tentam detê-la

 

A mentira pesa

exige memória

máscaras

cuidado com cada palavra

 

A verdade não

ela respira

no gesto simples

de dizer “errei”

na coragem tranquila

de ficar de pé

quando seria mais fácil

curvar-se

 

Quem escolhe a verdade

não escolhe o caminho fácil

mas escolhe o chão firme

 

E no fim de cada dia

quando o silêncio chega

e ninguém mais nos observa

é a verdade

que nos permite

dormir

com o coração inteiro.

 

Mário Margaride

05-03-2026


segunda-feira, 2 de março de 2026

NOS ESCOMBROS DA DESTRUIÇÃO


Há um grito antigo preso na garganta do mundo

ecoando entre ruínas que já foram casas

entre ruas que aprenderam a soletrar o medo

antes mesmo de aprenderem o nome da paz

 

As guerras não começam apenas com tiros

começam com sementes de ódio

regadas em discursos inflamados

assinadas por mãos

que jamais tocam o campo de batalha

 

E então o céu

que devia ser azul promessa

rasga-se em fogo

cidades tornam-se pó

mapas tornam-se cicatrizes

e a humanidade desaprende o significado de abrigo

 

Em cada fronteira em chamas

da poeira que cobre vidas esquecidas

às avenidas que um dia brilharam sob néons

há mães que embalam silêncios

há crianças que desenham tanques

onde antes desenhavam árvores

 

A guerra não mata apenas corpos

mata futuros

mata idiomas inteiros

guardados na memória dos nossos avós

 

E quando o estrondo termina

fica o trabalho invisível da dor

reconstruir não só paredes

mas almas partidas

 

Talvez o maior desastre não seja a cidade caída

mas o hábito da violência

a normalidade do horror

o cansaço diante do sofrimento alheio

enquanto houver guerra

haverá um pouco menos de humano no homem

 

E, no entanto

entre escombros

há sempre alguém que partilha pão

que protege um estranho

que planta uma árvore no meio da devastação

 

Talvez seja aí

nesse gesto teimoso de cuidado

que a humanidade ainda resiste

ao pior de si mesma.

 

Mário Margaride

01-03-2026


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

NAS MARGENS DO MEU SENTIR

 

Nas margens do meu sentir

crescem árvores de ramos fortes

onde nascem frutos carregados de energia

para dar força e alento às minhas emoções

 

Nas margens do meu sentir

os sinais emergem turbulentos

mas sem perderem a esperança

neste Universo controverso e complexo

das nossas inquietações.

 

Mário Margaride

26-02-2026


domingo, 22 de fevereiro de 2026

É NA VERDADE E NA SOLIDARIEDADE QUE O AMOR SE SUSTENTA

  

No silêncio

onde dois corações se encontram

não é o brilho passageiro que sustenta o amor

mas a verdade

dita com mãos abertas

sem máscaras

sem medo

sem disfarce

 

A verdade

é ponte firme sobre o abismo das dúvidas

que o tempo insiste em cavar

é luz que não fere

mas revela

e ao revelar

fortalece o olhar

 

A solidariedade

é o gesto que antecede a palavra

é dividir o peso quando o mundo pesa demais

é permanecer quando a tempestade sopra

é ser abrigo...

e também cais

 

É dizer “teu problema é nosso”

é transformar dor em travessia

é compreender que amar não é posse

mas presença que se oferece dia após dia

 

E a confiança...delicada e poderosa

é o chão invisível que sustenta os passos

não se impõe, cultiva-se em cuidado

em promessas cumpridas, em laços

 

Ela é o descanso do coração inquieto

é a certeza serena no meio do caos

é saber que, mesmo na ausência

há lealdade morando entre nós

 

Quando a verdade

solidariedade e confiança

entrelaçam-se como fios de um mesmo tear

o amor deixa de ser apenas chama

e torna-se casa onde é seguro habitar

 

Porque amar

no mais profundo sentido

não é apenas sentir

é escolher permanecer

 

É construir

com mãos honestas e firmes

um “nós” que aprende, erra

e volta a crescer.

 

Mário Margaride


 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

QUANDO AINDA HÁ LUZ

  

Quando o mundo pesa nos ombros

e a noite parece não ter fim

quando o vento frio da perda

atravessa a alma assim

há algo que insiste

pequeno como chama em brasa

mas firme como raiz antiga

que rompe o chão e não se arrasa

é a esperança

 

Ela não grita

não vence pela força

não impede a tempestade

mas ensina o coração a ficar

 

E quando tudo é cinza e ruína

quando os sonhos parecem pó

surge o amor, silencioso

segurando o que restou de nós

 

Amor que costura feridas

com mãos invisíveis e pacientes

que transforma lágrimas em rios

capazes de seguir em frente

 

Amor que é abrigo no inverno

que é pão repartido na escassez

que é presença quando tudo falta

que é recomeço outra vez

 

Porque enquanto houver alguém

que estenda a mão na escuridão

enquanto um coração disser “fica”

e outro responder “não solto”

haverá sempre amanhã

 

E mesmo trêmula

mesmo ferida

mesmo pequena

a esperança florescerá

no solo mais improvável

alimentada pela força indestrutível...

...do amor.

 

Mário Margaride

15-02-2026


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

AQUELE ABRAÇO

 

Há um idioma que não se aprende nos livros

nem se conjuga em verbos

vive na pele

o abraço

 

É ponte lançada quando as palavras desabam

é casa improvisada no meio da tempestade

é teto de braços cobrindo

a nudez do medo

 

E quando o mundo pesa nos ombros

e a coragem se esconde em algum canto escuro

um abraço chega

como quem diz

“Fica, eu aguento contigo”

 

Ele não resolve contas

não desfaz perdas

não apaga ausências

mas sustenta o que ameaça ruir

 

Há fragilidades que só se atravessam assim

peito contra peito

coração ouvindo coração

respirações tentando encontrar

um mesmo ritmo

 

No abraço

a dor deixa de ser solitária

divide-se

e, ao dividir-se

fica menor

 

É estranho

como dois corpos podem criar

um espaço onde o medo se aquieta

e a esperança reaprende a caminhar

 

E em momentos de queda

o abraço não é fuga

é raiz

é lembrança silenciosa

de que ninguém precisa ser forte

o tempo todo

 

Porque há dias

em que a maior forma de coragem

é simplesmente

deixar-se envolver.

 

Mário Margaride