Há um grito antigo preso na garganta do mundo
ecoando entre ruínas que já foram casas
entre ruas que aprenderam a soletrar o medo
antes mesmo de aprenderem o nome da paz
As guerras não começam apenas com tiros
começam com sementes de ódio
regadas em discursos inflamados
assinadas por mãos
que jamais tocam o campo de batalha
E então o céu
que devia ser azul promessa
rasga-se em fogo
cidades tornam-se pó
mapas tornam-se cicatrizes
e a humanidade desaprende o significado de abrigo
Em cada fronteira em chamas
da poeira que cobre vidas esquecidas
às avenidas que um dia brilharam sob néons
há mães que embalam silêncios
há crianças que desenham tanques
onde antes desenhavam árvores
A guerra não mata apenas corpos
mata futuros
mata idiomas inteiros
guardados na memória dos nossos avós
E quando o estrondo termina
fica o trabalho invisível da dor
reconstruir não só paredes
mas almas partidas
Talvez o maior desastre não seja a cidade caída
mas o hábito da violência
a normalidade do horror
o cansaço diante do sofrimento alheio
enquanto houver guerra
haverá um pouco menos de humano no homem
E, no entanto
entre escombros
há sempre alguém que partilha pão
que protege um estranho
que planta uma árvore no meio da devastação
Talvez seja aí
nesse gesto teimoso de cuidado
que a humanidade ainda resiste
ao pior de si mesma.
Mário Margaride
01-03-2026
