Um dia
a Terra há de perguntar-nos
por que razão confundimos progresso
com destruição
riqueza com desperdício
e poder com domínio
Perguntará pelos rios envenenados
pelas florestas reduzidas a cinza
pelos oceanos sufocados
sob o peso do plástico
e da nossa ganância
Perguntará pelas árvores
que tombaram sem voz
pelos animais que desapareceram
antes que os nossos olhos
aprendessem a reconhecê-los
pelas espécies condenadas
à memória de quem já não as verá
E talvez então percebamos
que o fogo que queimava as florestas
não era apenas fogo
era um aviso
Que o gelo que desaparecia
não era apenas gelo
era o silêncio
de um planeta a perder o equilíbrio
Que os mares que avançavam
sobre cidades e aldeias
não eram apenas água
eram a resposta
de uma natureza empurrada
para além dos seus limites
Furacões, secas, incêndios
chuvas que chegam como muralhas
calor que transforma o ar
numa fornalha invisível
terras onde a vida já luta
por uma gota de água
E no meio de tudo isto
há seres humanos correndo
fugindo
chorando pelos mortos
procurando nas ruínas
onde antes existiam casas
A Terra não está a vingar-se
está a reagir
Nós é que esquecemos
que a natureza não é nossa propriedade
e que somos apenas hóspedes
numa casa que julgámos eterna
Enchemos os céus de fumo
e perguntamos por que razão
o clima enlouqueceu
Ferimos o planeta
e chamámos-lhe acidente
quando ele começou a sangrar
Porque a Terra continuará
talvez sem nós
e essa será a mais terrível das ironias
não somos nós que estamos a salvar o planeta
é o planeta que
apesar de tudo
ainda nos está a dar uma última oportunidade
para salvarmos a nós próprios.
Mário Margaride
09-08-2026




