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segunda-feira, 15 de junho de 2026

OS OLHOS DO CORAÇÃO

 

Há uma linguagem sem voz nem palavra

que não se aprende em livros nem escolas

nasce serena, secreta e rara

e habita o brilho que os olhos desenrolam

 

Os olhos não mentem quando a alma fala

nem conseguem esconder o que o peito sente

são rios transparentes cuja corrente

leva a verdade que o coração embala

 

Neles mora a ternura dos afetos

a saudade vestida de silêncio

os sonhos guardados em recantos discretos

e a dor que resiste ao esquecimento

 

Um olhar pode ser abraço distante

porto seguro em mar revolto e frio

pode ser sol em manhã radiante

ou sombra perdida à beira de um rio

 

Quantas vezes os lábios se calam

mas os olhos contam a história inteira?

 

Quantas lágrimas neles se embalam

antes de caírem na face derradeira?

 

São eles a ponte entre o sentir e o mundo

o espelho fiel do que o coração encerra

revelam o amor mais puro e profundo

a esperança que floresce e a tristeza que erra

 

Por isso, quando olhares alguém de verdade

não escutes apenas a voz que se pronuncia

procura nos olhos a sua realidade

pois neles habita a mais sincera poesia

 

Porque os olhos são janelas iluminadas

abertas para os segredos da emoção

e mostram, mesmo quando estão caladas

a forma exata de bater de um coração.

 

Mário Margaride

14-06-2026


sexta-feira, 12 de junho de 2026

VIAGEM


Caminhamos sempre nesta estrada

por entre a inquietação e o prazer

nas margens desta estrada que circunda

tudo aquilo que tivemos que viver

 

São trilhos que nem sempre nos agradam

mas a vida se encarrega de os dar

para neles prosseguirmos a viagem

até o nosso caminho encontrar

 

Viagens que fazemos vida fora

por estradas sinuosas e com dor

seguindo nosso trilho nosso rumo 

em busca do nosso sol...do nosso amor.

 

Mário Margaride

11-06-2026


terça-feira, 9 de junho de 2026

MAR DE DESENCANTO

 

São turbulentas as águas que nos banham

num bailar contínuo das suas ondas

batendo violentamente na praia

rasgando as areias da alegria

num vai e vem descontrolado

 

Ventos sopram de rajada

levando consigo

a alegria e o encanto

devastado pelas ondas

deste mar tremendo e assustador

 

Neste mar de desencanto

despejamos nas suas águas

a tristeza, a dor...a frustração.

 

Mário Margaride

20-01-2020


sábado, 6 de junho de 2026

A SOMBRA DA VERDADE

 

Não chegam com gritos de guerra

nem com bandeiras ao vento erguidas

chegam em passos suaves, de veludo

por entre palavras polidas

 

Vestem a mentira de lógica

dão-lhe um rosto respeitável

e repetem-na tantas vezes

que parece inevitável

 

Não negam a luz de repente

apagariam suspeitas demais

preferem cobri-la de névoa

com subtis sinais

 

É um bombardeamento constante

gota a gota sobre a razão

até que a falsidade se acomode

como hóspede no coração

 

Os factos tornam-se incómodos

pedras no caminho traçado

por isso são contornados em silêncio

retocados, reorganizados

com enorme devoção

 

E quem procura a verdade

entre o ruído e a encenação

vê-se perdido num labirinto

sem mapa, sem direção

 

Pois a fraude mais perigosa

não é a que se impõe pela força

é a que se insinua mansa

e a cada dúvida, reforça a ilusão

 

 

Mas a verdade tem raízes profundas

mesmo sob camadas de engano

pode ser abafada por um tempo

mas não desaparece do quotidiano

 

E um dia, por entre as ruínas

das narrativas construídas

ergue-se nua e persistente

para cobrar contas às mentiras

 

Porque a sombra pode ser longa

e ocultar o sol por instantes

mas nenhuma noite fabricada

vence para sempre os seus diamantes.

 

Mário Margaride

05-06-2026


terça-feira, 2 de junho de 2026

A REVOLTA SILENCIOSA


Há uma revolta que em nós habita

feita de fogo contido e de amargura

quando vemos os senhores do mundo

erguerem impérios sobre a desventura

 

Enquanto isso, nas ruas da vida

há quem carregue a fome nos braços

quem enterre sonhos ainda vivos

quem caminhe perdido entre estilhaços

 

E nós

espectadores involuntários

com o coração pesado de razão

sentimos crescer uma tempestade

presa nas grades

da nossa condição

 

Porque dói saber

e nada poder mudar

dói compreender

e não poder impedir

ver a injustiça vestir-se de lei

e a verdade

tantas vezes sucumbir

 

Há gritos que não chegam aos palácios

lá onde o poder raramente escuta

e há lágrimas que secam sozinhas

na longa espera de uma justa luta

 

Mas a revolta não é só desespero

é também a chama que insiste em arder

a recusa em aceitar como normal

aquilo que nunca deveria acontecer

 

E enquanto houver um coração atento

uma consciência que não se vende ao medo

os senhores do mundo nunca possuirão

o mais valioso dos nossos segredos

 

A força discreta dos que resistem

mesmo sem exércitos ou posição

porque a mudança chegará um dia

na revolta contida...dentro do coração.

 

Mário Margaride

01-06-2026