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domingo, 13 de setembro de 2026

ASSOBIAM PARA O LADO

 

Dói-me o silêncio da indiferença

quando a dor vagueia sem parar

quando as armas buscam suas presas

e a morte se espalha pelo ar

 

Há crianças que aprendem a contar

não estrelas

mas bombas que caem do céu

 

Há mães que abraçam os filhos

como quem tenta esconder o medo

debaixo dos próprios braços

 

Há homens que procuram

entre ruínas

um nome, um rosto, uma vida

qualquer pedaço de ontem

que a guerra não tenha levado

 

E há fome

 

Fome que não pede discursos

nem tratados

nem bandeiras erguidas ao vento

pede apenas pão, água

um lugar onde dormir

sem acordar ao som da morte

 

E quando a dor atravessa fronteiras

quando o mundo inteiro vê

quando a humanidade grita

eles desviam o olhar

 

Assobiam para o lado

 

São os senhores da guerra e do mundo

donos de decisões tomadas

à distância da lágrima

do sangue e da miséria

 

Acendem o fogo

e depois fecham as janelas

para não sentirem o fumo

 como se não ouvissem

o som das bombas

o choro de uma criança

como se não vissem...

o corpo de um inocente

 

E dentro de nós cresce a revolta

porque há uma dor que não é apenas nossa

é a dor de sabermos

que tanta gente sofre

enquanto alguns poderiam impedir

e simplesmente não o fazem

 

Assobiam para o lado

 

Porque enquanto houver alguém

que ainda sinta a dor do outro

enquanto houver uma voz

que se levante contra a violência

enquanto houver um coração

que se recuse a aceitar

a fome como destino

 

Os senhores da guerra

podem dominar territórios

podem comprar silêncios

podem mandar exércitos

mas nunca serão donos

daquilo que ainda nos resta

de humanidade.

 

Mário Margaride

12-09-2026


terça-feira, 8 de setembro de 2026

NADA SEI

 

Não me perguntem o que sei da vida

o que sei da dor

o que sei da felicidade

o que sei do amor

 

Não sei nada do que me perguntam

sou um mero passageiro

sem rota

destino

ou passaporte

que vai estando de passagem

nesta estrada

ao encontro da sua sorte.

 

Mário Margaride

06-09-2026






sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O ESPELHO DA HIPOCRISIA

 

Neste Universo complexo onde estamos

muitas vezes a mentira

é travestida de verdade

quando ela nos convém

 

Erguemos a voz pela justiça

mas baixamos os olhos

quando o injusto nos beneficia

 

Falamos de respeito

com palavras cuidadosamente escolhidas

e depois ferimos em silêncio

quem ousa pensar diferente

 

Defendemos a liberdade

desde que o outro não use a sua

para contrariar a nossa

 

Pregamos a tolerância

mas construímos muros

diante de quem não cabe

na medida estreita das nossas certezas

 

Falamos de igualdade

mas procuramos privilégios

quando a igualdade nos toca à porta

e chamamos coerência

àquilo que apenas nos favorece

 

Há uma estranha duplicidade

a morar dentro de nós

uma voz que proclama o correto

e outra que, às escondidas

negoceia com a conveniência

 

Somos capazes de defender a bondade

numa praça cheia de gente

e praticar a indiferença

quando ninguém está a olhar

 

E talvez a maior contradição

não esteja nas palavras que dizemos

mas no abismo que construímos

entre elas e os nossos gestos

 

Porque é fácil anunciar princípios

quando são apenas palavras

difícil é mantê-los vivos

quando exigem sacrifício

quando ferem o orgulho

quando nos obrigam a reconhecer

que também somos capazes

daquilo que condenamos nos outros

 

No fundo

cada atitude é um espelho

e há espelhos que evitamos

porque refletem sem piedade

aquilo que gostaríamos de esconder

a distância, entre o que dizemos ser

e aquilo que realmente somos

 

Talvez a verdadeira coerência

comece nesse instante silencioso

em que deixamos de culpar o mundo

e olhamos finalmente para nós

e perguntamos, sem desculpas

se todos fizessem aquilo que eu faço

o mundo seria realmente

aquilo que digo defender?

 

Mário Margaride

01-09-2026


sábado, 29 de agosto de 2026

ESPELHO QUEBRADO

  

Há dias em que o espelho mente

e nós acreditamos na mentira

olhamo-nos sem nos reconhecer

como quem procura uma luz

num quarto onde a esperança se retirou

 

A autoestima desfaz-se devagar

como areia escapando entre os dedos

e cada pequena dúvida

transforma-se numa muralha

entre nós e o mundo

 

Começamos a esconder o rosto

a diminuir a voz

a pedir desculpa por existir

a acreditar que os outros

são sempre melhores

mais fortes

mais belos

mais merecedores que nós

e então fechamos a porta

 

Primeiro, ao mundo

depois, aos amigos

depois, aos abraços

e finalmente, a nós próprios

 

O isolamento torna-se abrigo

mas é um abrigo sem janelas

onde o silêncio cresce pelas paredes

e os pensamentos se tornam sombras

que nos perseguem sem descanso

 

E, sem percebermos

a tristeza senta-se conosco à mesa

dorme ao nosso lado

caminha dentro de nós

e começa a chamar-se vida

 

Mas há uma verdade

que o espelho quebrado não consegue mostrar

é que não somos aquilo

que a nossa dor diz que somos

 

E talvez seja preciso tempo

coragem e uma mão estendida

para voltarmos a acreditar

naquilo que esquecemos

que merecemos existir sem pedir licença

 

Então aí,

podemos olhar novamente para o espelho

sem procurar defeitos

mas procurando, finalmente

a pessoa que ainda somos.

 

Mário Margaride

28-08-2026


sábado, 22 de agosto de 2026

PORTO-CIDADE GRANÍTICA-FEITA DE ALMA E CORAÇÃO

  

Há cidades que se visitam

e há cidades que nos visitam por dentro

o Porto é assim

 

Ergue-se sobre o Douro

entre pedras antigas e águas que levam histórias

com as suas pontes suspensas no horizonte

e as casas encostadas umas às outras

como se o tempo tivesse construído

um abraço de granito sobre o rio

 

É cidade de beleza sem artifícios

de ruas que sobem e descem

carregadas de memórias

de fachadas gastas pelo tempo

onde cada janela parece guardar

uma vida, uma saudade, uma história

 

E há o Douro…

sereno, profundo

refletindo nas suas águas

as cores da cidade

as luzes do entardecer

o movimento das gentes

e esse céu que tantas vezes

parece feito à medida do Porto

 

Mas o Porto não vive apenas dos olhos

vive dos sabores

do caldo verde fumegante

da francesinha que desafia a fome

do peixe que chega à mesa

com o cheiro salgado do Atlântico

do vinho que nasce nas encostas do Douro

e encontra na cidade

a sua mais nobre celebração

 

No Porto, uma frase, uma palavra

pode parecer dura

e, ainda assim, esconder ternura e carinho

 

Um "anda daí!"

pode ser um convite

um "estás bem?"

pode significar muito mais

do que uma simples pergunta

 

Porque o portuense tem essa particularidade

pode receber-nos com uma frase breve

um sorriso discreto

um comentário mordaz

 

É um povo diverso

feito de gerações, sotaques, culturas

vidas que chegam, vidas que partem

e outras que ficam para sempre

 

Um povo que conhece a dureza da vida

mas que não perdeu

a capacidade de acolher

 

Ela está nas pedras

nas varandas

nos barcos

nas pontes

nas mesas cheias

nas vozes que atravessam as ruas

nos olhos de quem chega

e, quase sem perceber

começa a sentir que lhe pertence

 

Porto…

Cidade de granito e de poesia

de trabalho e de boémia

de tradição e mudança

de saudade e esperança

 

E fica em cada visitante

uma certeza difícil de explicar

há cidades que conhecemos com os olhos

o Porto conhece-se com o coração.

 

Mário Margaride

20-08-2026

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                                                           RUI VELOSO

PORTO SENTIDO