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terça-feira, 2 de junho de 2026

A REVOLTA SILENCIOSA


Há uma revolta que em nós habita

feita de fogo contido e de amargura

quando vemos os senhores do mundo

erguerem impérios sobre a desventura

 

Enquanto isso, nas ruas da vida

há quem carregue a fome nos braços

quem enterre sonhos ainda vivos

quem caminhe perdido entre estilhaços

 

E nós

espectadores involuntários

com o coração pesado de razão

sentimos crescer uma tempestade

presa nas grades

da nossa condição

 

Porque dói saber

e nada poder mudar

dói compreender

e não poder impedir

ver a injustiça vestir-se de lei

e a verdade

tantas vezes sucumbir

 

Há gritos que não chegam aos palácios

lá onde o poder raramente escuta

e há lágrimas que secam sozinhas

na longa espera de uma justa luta

 

Mas a revolta não é só desespero

é também a chama que insiste em arder

a recusa em aceitar como normal

aquilo que nunca deveria acontecer

 

E enquanto houver um coração atento

uma consciência que não se vende ao medo

os senhores do mundo nunca possuirão

o mais valioso dos nossos segredos

 

A força discreta dos que resistem

mesmo sem exércitos ou posição

porque a mudança chegará um dia

na revolta contida...dentro do coração.

 

Mário Margaride

01-06-2026


segunda-feira, 1 de junho de 2026

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA


Embora o dia da criança seja todos os dias

aqui fica este poema dedicado a todas as crianças do mundo.


Beijos e abraços!


SÓ TU DOCE CRIANÇA



Nas tuas mãos um papel

Pode ser de mil cores

Um soldado sem quartel

Ou um jardim com flores

 

Um avião que não pousa

Uma bala que não mata

Um cavalo sem arreata

Que não conhece senhor

 

Um irmão com quem tu brincas

À apanha, e ao pião

Um pão quente que tu trincas

Como só se trinca o pão

 

Pai que te faz companhia

Nos teus sonhos sempre belos

Uma mãe quente e macia

E que te afaga os cabelos


Tudo quanto a vista alcança

E possas imaginar

Que só tu doce criança

Consegues reinventar.

 

Mário Margaride



sexta-feira, 29 de maio de 2026

ARTISTAS DA ILUSÃO

 

Há artistas da mentira

que pintam o engano com ouro

e fazem do vazio um templo

onde muitos ajoelham sem notar

 

Têm vozes suaves

como água morna em noites frias

e palavras escolhidas

com a precisão dos ilusionistas

 

Falam de esperança

como quem oferece abrigo

mas escondem nas mãos polidas

os fios invisíveis da manipulação

 

Transformam sombras em promessas

e vestem a mentira

com roupas tão belas

que até a verdade hesita

 

São mestres da encenação

erguem discursos luminosos

sobre alicerces podres

e chamam "salvação"

ao que lentamente nos destrói

 

E há quem os siga

não por fraqueza

mas porque o coração humano

tem fome de acreditar

 

Porque a mentira

quando dita com doçura suficiente

ganha perfume de eternidade

e aparência de absoluta razão

 

Mas a verdade...

essa velha silenciosa...

não precisa de adornos

 

Chega devagar

descalça

ferida talvez

mas inteira

 

E quando finalmente entra

derruba o palco

apaga as luzes do espetáculo

e deixa os artistas da mentira

sozinhos diante do espelho

que sempre evitaram olhar.

 

Mário Margaride

28-05-2026


segunda-feira, 25 de maio de 2026

HÁ UM TEMPO

  

No universo de nós

se guardam recordações

que perduram no tempo

e no espaço

da nossa memória

 

Pedaços de vida

que se guardam bem fechadas

na gaveta infinita

da nossa alma

 

Que no espaço temporal

da nossa existência

aí ficarão

até que o tempo as afogue

do oceano imenso...

das nossas recordações

 

No universo de nós

há um tempo onde o tempo

se esvai e se esfuma

nas nuvens que passam

no espaço sideral...

do nosso esquecimento.

 

Mário Margaride


 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

QUANDO A ILUSÃO SE VESTE DE REALIDADE

 

Há amores que chegam

 entram devagar na casa da alma

como quem traz abrigo

como quem conhece o nome secreto

de todas as nossas feridas

 

E nós acreditamos

Ah, como acreditamos

 

Porque a ilusão

quando se veste de amor verdadeiro

não parece mentira

parece destino

 

Ela aprende os nossos silêncios

decora os nossos vazios

acende pequenas lanternas

nos corredores escuros do peito

 

E então caminhamos

descalços

entregues

convencidos

de que finalmente

a felicidade deixou de ser horizonte

para virar morada

 

Mas há promessas

que nascem já partidas

 

Há braços que abraçam

com a mesma força

com que empurram depois

 

E um dia

sem aviso

o amor que jurava salvar-nos

transforma-se na pedra

amarrada aos tornozelos da esperança

 

Tudo começa a ruir devagar

os sonhos primeiro

depois a confiança

depois aquela luz tranquila

que tínhamos no olhar

 

A felicidade

torna-se estrada interrompida

uma ponte suspensa sobre o vazio

 

E nós, no meio dela

tentando entender

em que instante o paraíso

aprendeu a ferir

 

Talvez o pior da ilusão

não seja a mentira

 

Talvez seja o facto

de ela usar exatamente o rosto

daquilo que mais desejávamos encontrar

 

E ainda assim…

mesmo depois dos escombros

há qualquer coisa dentro de nós

que continua respirando baixo

quase em segredo

 

Porque o coração

esse teimoso

mesmo devastado

nunca deixa completamente

de acreditar na manhã seguinte

 

E talvez seja aí

entre os destroços do engano

que a verdadeira felicidade

recomece

não como sonho perfeito

mas como alguém que aprendeu

a sobreviver à tempestade

sem deixar morrer a ternura.

 

Mário Margaride

20-05-2026