Há dias em que o espelho mente
e nós acreditamos na mentira
olhamo-nos sem nos reconhecer
como quem procura uma luz
num quarto onde a esperança se retirou
A autoestima desfaz-se devagar
como areia escapando entre os dedos
e cada pequena dúvida
transforma-se numa muralha
entre nós e o mundo
Começamos a esconder o rosto
a diminuir a voz
a pedir desculpa por existir
a acreditar que os outros
são sempre melhores
mais fortes
mais belos
mais merecedores que nós
e então fechamos a porta
Primeiro, ao mundo
depois, aos amigos
depois, aos abraços
e finalmente, a nós próprios
O isolamento torna-se abrigo
mas é um abrigo sem janelas
onde o silêncio cresce pelas paredes
e os pensamentos se tornam sombras
que nos perseguem sem descanso
E, sem percebermos
a tristeza senta-se conosco à mesa
dorme ao nosso lado
caminha dentro de nós
e começa a chamar-se vida
Mas há uma verdade
que o espelho quebrado não consegue mostrar
é que não somos aquilo
que a nossa dor diz que somos
E talvez seja preciso tempo
coragem e uma mão estendida
para voltarmos a acreditar
naquilo que esquecemos
que merecemos existir sem pedir licença
Então aí,
podemos olhar novamente para o espelho
sem procurar defeitos
mas procurando, finalmente
a pessoa que ainda somos.
Mário Margaride
28-08-2026




